Breves considerações relativas à exposição
No ano em que se comemoram os 100 anos da Implantação da República, o Município de Vila Pouca de Aguiar não quis deixar de se debruçar sobre esta efeméride. Neste sentido, decidiu elaborar um estudo sobre as consequências e os impactos que a revolução republicana teve no seio da comunidade aguiarense.
Para uma melhor compreensão das causas que levaram à mudança de regime, e dos efeitos que dela resultaram, decidiu o Município alargar o espaço temporal, balizando o estudo entre o Regicídio (1908) e a tentativa da contra revolução, levada a cabo em Trás-os-Montes pelo Capitão Paiva Couceiro (1911-1912).
A Imprensa Aguiarense
Entre 1908 e 1912 existiam em Vila Pouca de Aguiar dois Jornais: “ O Aguiarense”, cujo director era o Dr. Martiniano Ferreira Botelho, médico, natural de Vila Pouca de Aguiar e por diversas vezes administrador do Concelho, possuía tendências claramente pró monárquicas, defendendo afincadamente o regime. A direcção do Jornal foi substituída 20 dias após o 5 de Outubro, pelo conhecido republicano Manuel José Rodrigues. Este, na edição de 29 de Outubro, proclama que “ontem monárquico por amor à ordem e horror à guerra civil, o seu director é hoje republicano. Como consequência “O Aguiarense é hoje republicano”. Relativamente ao outro Jornal “A Aurora do Corgo”, vinha já demonstrando, desde 1908, uma tendência embora não clara, para apadrinhar alguns ideais republicanos.
Implantação da República
No que diz respeito à Implantação da República, ambos os jornais se referem a pequenas manifestações de júbilo por parte da população (uma população eminentemente rural e com fracas vias de comunicação, que provavelmente não assimilou muito bem o que a república constituía). Presume-se que numa tentativa de “caça às bruxas”, o Aguiarense (agora republicano), procedeu a um inquérito junto de algumas das mais ilustres figuras do Concelho (Comendador Silva, Henrique Botelho, Silvino Teixeira, Benjamim de Almeida, Diniz Morais, entre outros), formulando a seguinte questão: “ Havia antes do 5 de Outubro republicanos em Vila Pouca?”. As respostas foram as mais díspares: uns não se coibiram em afirmar que o Dr. Armando Chaves e o Dr. Acácio eram provavelmente já republicanos antes da revolução, outros afirmavam que não conheciam nenhum republicano antes do 5 de Outubro e outros ainda, e num tom certamente irónico, que “republicano era só o caixeiro do LÉLÉ”
Face a este inquérito, o Aurora do Corgo chamou ao director do Jornal O Aguiarense, “ascoroso micróbio de formas gigantescas”, interpretando-o como uma tentativa de pôr em causa o ideal republicano do seu director.
Acções de propaganda e sensibilização dos ideais republicanos levadas a efeito no Concelho.
Foram efectuadas em vários locais do Concelho algumas acções de esclarecimento sobre “0 que é a República?”. Das várias acções destacam-se as realizadas no então denominado “Club de Vila Pouca” que funcionava numa sala do edifício da actual Câmara Municipal e no Casino de Pedras Salgadas. Para a população em geral foram realizadas mais duas acções: uma no Largo da Praça e outra no Cruzeiro (Toural). Os oradores eram personalidades fundamentalmente ligadas ao exército.
Não podemos deixar de salientar que, uma das muitas acções de sensibilização ocorridas nas diversas aldeias, não chegou a decorrer. Falamos da aldeia de Eiriz, onde a população boicotou duma forma algo violenta a respectiva acção de sensibilização. O então Pároco da aldeia de nome Pinheiro foi chamado ao administrador do Concelho, que o responsabilizou pelo ocorrido.
Instabilidade e tentativa de contra revolução pelo Capitão Paiva Couceiro
Com os ecos de uma possível contra revolução os jornais dão-nos conta de algumas movimentações de tropas em Vila Pouca de Aguiar. Assim, em Junho de 1911 chega a esta Vila uma força de artilharia composta por 48 praças. Segundo os relatos, ”os soldados vinham a cantar a portuguesa, soltando ao mesmo tempo vivas à pátria e à República. A força era aguardada à entrada da Vila por muita gente que aclamou o exército e a República, correspondendo os homens agitando os bonés. No dia seguinte de manhã chegou também uma força de cavalaria 7. O povo confraternizou com os soldados, vendo-se aqui e alem grupos de populares e soldados discutindo com entusiasmo”.
Estando a tropa instalada na Vila, chegou ao director do Aurora do Corgo um telegrama enviado de Lisboa dando a informação de que, pelas 10 horas e 45 minutos passaria por esta Vila, vindo de comboio em direcção a Chaves, o ministro do Interior António José de Almeida. Após terem comunicado o conteúdo do telegrama, depressa a notícia se espalhou pela Vila. Os soldados aqui estacionados, obtendo a permissão dos respectivos comandantes, reuniram-se no Largo do Cruzeiro, levando cada um dos destacamentos a Bandeira Nacional. Seguiram depois para a Estação dos Caminhos-de-ferro cantando “A Portuguesa ”, acompanhados pela banda Aguiarense e soltando repetidos vivas à República.
Município de Vila Pouca de Aguiar.